Aliados de Bolsonaro articulam criação de novo partido como alternativa ao PSL

Ao ser flagrado na terça-feita criticando o PSL, o presidente Jair Bolsonaro reacendeu o debate sobre uma eventual mudança de partido . Bolsonaro recomendou a um apoiador “esquecer o PSL” e disse que o presidente da sigla, Luciano Bivar , está “queimado”. A discussão acontece em meio a uma disputa interna pelo controle do fundo partidário de R$ 103 milhões. Dois caminhos já são discutidos.
Um deles seria criar uma legenda do zero, a partir da coleta de assinaturas. Essa alternativa é vista como menos provável, uma vez que levaria um tempo maior até ser viabilizada. Mesmo assim, o caminho está sendo pavimentado, e o partido seria batizado de Conservadores. Aliados do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) estão, inclusive, finalizando o estatuto dessa nova legenda.
Minuta da nova sigla
De acordo com a minuta com as premissas a serem adotadas, a sigla terá como princípios a “moralidade cristã, a vida a partir da concepção, a liberdade e a propriedade privada”. O texto defende ainda o direito à legítima defesa individual, combate à sexualização precoce de crianças e à apologia da ideologia de gênero e defesa do legado da “moralidade cristã e da civilização ocidental”. Filiados estarão proibidos de fazer alianças com partidos da “esquerda bolivariana”.
Outra possibilidade é Bolsonaro migrar para outra legenda. Algumas delas já começam a se movimentar na tentativa de atrair o presidente. A ideia seria desembarcar num partido menor para promover uma reforma interna. Siglas como o Patriota e a UDN — esta em vias de ser criada — são as opções mais prováveis no momento.
— Sempre fui fiel ao presidente. A última conversa que eu tive com ele foi para dizer: as portas estão abertas e no dia que você precisar, você tem tudo neste partido, porque eu admiro demais o seu trabalho e eu sou um dos seus fãs neste país — afirmou Adilson Barroso, presidente do Patriota, partido com o qual Bolsonaro chegou a conversar antes de se filiar ao PSL.
O Patriota terá uma reunião hoje para fechar um posicionamento público em relação à possível filiação de Bolsonaro. Segundo uma fonte da legenda ouvida pelo GLOBO, caso o presidente mude de fato de sigla, de 20 a 25 deputados iriam junto.

O diálogo

Na terça-feira, Bolsonaro pediu para um apoiador esquecer o PSL. O presidente disse ainda que Bivar está “queimado para caramba”. O diálogo ocorreu na saída do Palácio da Alvorada, com um homem que se apresentou como pré-candidato pelo PSL no Recife.
Bolsonaro comentou no ouvido dele:
— Esquece o PSL, tá ok? Esquece.
O apoiador insiste e grava um vídeo ao lado de Bolsonaro, citando Bivar:
— Eu, Bolsonaro e Bivar, juntos por um novo Recife.
O presidente, então, pede que o vídeo não seja divulgado. Bivar é investigado pela Procuradoria Regional Eleitoral em Pernambuco por suspeitas de caixa dois em sua campanha a deputado federal.
— Cara, não divulga isso, não. O cara está queimado pra caramba lá. Vai queimar o meu filme. Esquece esse cara, esquece o partido — diz Bolsonaro.
A fala do presidente foi captada em um vídeo do canal do YouTube “Cafezinho com Pimenta”, que tem transmitido diariamente a interação de Bolsonaro com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada.
Aliados de Bolsonaro travam uma briga para que Bivar altere o estatuto da legenda e dilua com integrantes da executiva seu poder sobre o controle dos recursos. A mudança enfrenta resistência de Bivar, que começou a sofrer um processo de fritura por deputados que cobram sua saída do cargo.
De partido nanico, o PSL transformou-se na segunda maior bancada da Câmara. O GLOBO mostrou que o PSL deve receber nos próximos quatro anos R$ 737 milhões de fundos partidário e eleitoral.
Para o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, a eventual saída de Bolsonaro do PSL não seria nenhuma surpresa diante do histórico de troca de legendas do presidente:
— O Bolsonaro nunca foi um cara de partido. Seria mais um partido.
Uma das dificuldades, porém, é que, se sair do PSL, Bolsonaro deixa para trás uma bancada de peso no Congresso e também um fundo partidário considerável. Os deputados que quiserem acompanhar o presidente numa eventual mudança de partido, a menos que sejam expulsos ou recebam uma carta de anuência, vão perder o mandato.
O líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP), disse que ficou “perplexo” com as críticas de Bolsonaro ao PSL e a Bivar:
— Só posso dizer que fiquei perplexo. Não sei qual é a motivação.
Já o líder do partido na Câmara, Delegado Waldir (GO), disse que a bancada quer uma reunião com Bolsonaro para “aparar as arestas”.
Ao blog da Andréia Sadi, Bivar disse desconhecer o motivo da declaração de Bolsonaro:
—Não sei, realmente não sei. Até porque estou dentro do avião. (Colaboraram Sérgio Roxo, Gabriel Shinohara, Marco Grillo e Bruno Góes)

O Globo


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