O Balé Impotente de João Pessoa: Quando o Turismo Engole a Alma

 

Há uma beleza trágica em assistir uma cidade se apaixonar por si mesma e, no êxtase do espelho, começar a se consumir. João Pessoa, nossa princesa adormecida à beira do Atlântico, acordou para o assédio do progresso e, em vez de se arrumar com elegância, vestiu a fantasia de um carnaval sem fim. O resultado é um espetáculo ao mesmo tempo fascinante e doloroso: um balé impotente onde dançam, desordenadamente, o desejo de ser grande e a teimosa recusa em planejar essa grandeza.

É na orla que o drama se concentra, em sua fase mais visceral. As barracas de comida não são mais pontos de venda; são células de uma ocupação espontânea, um urbanismo orgânico que brota do asfalto e da areia, alimentado pela fome do turista e pela urgência do vendedor. Cada esquina, um território disputado; cada ambulante, um estado-nação com suas próprias leis e fronteiras móveis. O trânsito não flui ele coagula. Forma-se um organismo caótico de motos, carros e corpos, todos soprados pelo mesmo vento da improvisação. É a “tribalização de grupos” de que falava Jabor, mas sem a poesia da resistência, apenas a prosa dura da sobrevivência.

No centro dessa fisiologia do caos, surge um símbolo perfeito e prosaico: o banheiro químico. O Sindicato dos Hoteleiros, em um ato que mistura generosidade com desespero, sugeriu sua instalação nas praias. É um gesto revelador. Não se pensa em infraestrutura permanente, em saneamento integrado à paisagem, em dignidade arquitetônica. Pensa-se no paliativo, na solução química para um problema orgânico. O banheiro químico à beira-mar é a metáfora final: um órgão transplantado de um corpo urbano para outro, sem planejamento imunológico. Ele tampa um buraco, sim, mas revela um abismo: o abismo entre a ânsia de receber e a arte de acolher.

E o lixo? Ah, o lixo é a assinatura dessa nova era. Copos descartáveis rolam como ouriços-do-mar plásticos; guardanapos dançam no ar, fantasmas de piqueniques passageiros. Não há um grande vilão, apenas uma multidão de gestos pequenos e inconsequentes, uma “desorganização da ideia única” aplicada ao civismo. A consciência ecológica, cantada em hinos nas redes sociais, esvai-se na prática diante da primeira dificuldade: a de carregar o próprio resíduo por alguns metros. O respeito ao morador aquele que vive o paraíso nos dias cinzentos de fevereiro é a primeira vítima desse verão perpétuo. Sua cidade é tomada, sua calçada, obstruída; seu silêncio, quebrado pelo funk do carro de som do vendedor de camarão. Ele assiste, da janela de seu apartamento, à festa à qual não foi convidado.

Aqui jaz a mensagem subliminar de admiração, escondida como um seixo na areia: há uma energia brutal e vital nesse caos. João Pessoa não é uma cidade morta, resignada, museificada. Ela pulsa, mesmo que com arritmia. Essa desordem toda é o sinal de uma vida que transborda, de uma atração tão poderosa que atrai a si própria o seu risco de esgotamento. É a energia do “selvagem coração da vida”, que Jabor tanto evocou ao falar de juventude e transformação. Admiramos, mesmo enquanto criticamos, essa força telúrica, essa capacidade de atrair multidões apenas por ser o que é: bela, solar, aberta.

Mas a admiração sem responsabilidade é um crime de amor. Admirar uma criança brincando no alto de um precipício não é elogiá-la; é correr para tirá-la dali. João Pessoa está na beira de um precipício feito de plástico, concreto e boa intenção mal executada. O risco não é perder os turistas eles virão cada vez mais, atraídos pelo mito. O risco é perder a alma, aquela mistura de tranquilidade e cordialidade que definia o pessoense. O risco é a cidade se tornar um “videogame planetário” para visitantes, enquanto seus habitantes viram NPCs (personagens não jogadores) em seu próprio território.

Talvez a solução não esteja em um grande plano totalizante, numa “utopia totalizante” que Jabor identificava como coisa do passado. Talvez esteja na aceitação inteligente do múltiplo, no microgerenciamento do caos. Em regular, com sensibilidade, os ambulantes, dando-lhes identidade e responsabilidade. Em criar uma infraestrutura leve, porém digna, que dialogue com a paisagem. Em educar não com cartazes, mas com exemplo e integração. Em ouvir o morador não como um estorvo, mas como o guardião do espírito do lugar.

João Pessoa tem tudo para não se tornar mais uma vítima do turismo predatório. Ela pode escrever um capítulo diferente: onde o crescimento não significa rendição, e a popularidade não implica na perda de si. Para isso, precisa parar de apenas reagir como colocar um banheiro químico aqui, afastar um vendedor ali e começar a imaginar. Imaginar uma cidade que não tem medo de seu próprio sucesso, mas que o conduz com a mão firme de quem sabe o valor do que está protegendo. A crônica do caos pode, com coragem, ter um final feliz. Mas o próximo capítulo precisa ser escrito agora, antes que o balé impotente vire uma dança macabra.

Por, Alessandra Del’Agnese

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