O Teatro Minerva, em Areia, no Brejo Paraibano, foi devolvido à comunidade na última semana, com muita celebração pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A reinauguração do equipamento cultural mais antigo em atividade na Paraíba marcou não apenas a conclusão de uma restauração técnica — ela representou o reencontro de uma cidade com sua própria memória.
Da Sociedade Recreio Dramático à Deusa Minerva
A história do teatro começa com um grupo de jovens entusiastas que, em 1859, fundou a sociedade “Recreio Dramático” e ergueu um espaço cênico à altura das aspirações culturais da cidade. Batizado originalmente de Theatro Particular Recreio Dramático, o edifício ganhou o nome pelo qual é hoje reconhecido em 1904, quando uma estatueta da Deusa Minerva, vinda de Portugal, foi instalada em seu frontispício — coroando, literalmente, a fachada e a vocação do lugar.
O teatro integra o Centro Histórico de Areia, o primeiro conjunto urbano tombado pelo Iphan na Paraíba, desde 2005. Embora não possua tombamento individual, sua preservação é assegurada por estar inserido nesse conjunto histórico protegido — garantia que torna cada intervenção no edifício objeto de acompanhamento técnico rigoroso pela autarquia federal.
“Esse teatro tem uma singularidade fantástica porque, além de estar inserido num conjunto tombado, ele carrega consigo uma história e uma memória que perpassa não só a história do povo de Areia, como também toda a história dos paraibanos e paraibanas. Na minha opinião, é o teatro mais bonito da Paraíba”, disse o superintendente do Iphan na Paraíba, Jivago Barbosa.
A arte da restauração: madeira nobre e saberes locais
A reforma foi financiada integralmente com recursos próprios da Prefeitura de Areia, por meio do Fundo Municipal de Cultura — constituído pelo reinvestimento das taxas de visitação turística do município. A opção por capital local não se restringiu ao financiamento: a execução das obras foi confiada aos irmãos Tavares, carpinteiros da própria cidade, cujos ofícios tradicionais em madeira se revelaram indispensáveis para a qualidade do restauro.
As intervenções concentraram-se na recuperação do palco, das galerias, do foyer, das escadas e dos pisos, com o emprego de madeiras nobres para garantir a estabilidade estrutural e a segurança do edifício. O Escritório Técnico do Iphan em Areia foi responsável pela elaboração dos projetos e pelo acompanhamento técnico de cada etapa — assegurando que os critérios de autenticidade e integridade do patrimônio fossem preservados ao longo de todo o processo.
O resultado é visível na qualidade das superfícies, na solidez do piso e na uniformidade do acabamento — fruto, como ressaltou o superintendente Jivago, de “dedicação e amor ao patrimônio” presentes em cada detalhe. Para a instituição, a execução por mãos locais significou também a difusão de técnicas tradicionais de restauro em madeira, fortalecendo um saber-fazer que é, ele próprio, patrimônio imaterial da região.
O Teatro Minerva segue a tipologia italiana de teatro de corte europeu: a divisão nítida entre palco e plateia, a planta em ferradura e a presença do célebre “balcão do príncipe” — posicionado no ponto de fuga ideal da cena — compõem uma espacialidade que remete diretamente às casas de espetáculo do século 19. O interior em madeira de cedro, as cortinas de veludo vermelho e a iluminação com lustres do tipo candeeiro completam uma ambiência de refinamento singular para o interior do Nordeste.
Uma reinauguração à altura da história
A programação de reabertura foi concebida para celebrar tanto a trajetória do edifício quanto os fazedores de cultura que o animam. O espetáculo de destaque foi Catiço, de Thiago de Assis — artista que deu seus primeiros passos no próprio Minerva —, uma escolha carregada de simbolismo sobre o retorno às origens. Completaram a noite apresentações do Instituto CRIA Arte em Movimento, grupos de tradições folclóricas e bandas de música da zona rural, reafirmando o teatro como ponto de convergência da cultura viva do município e da região.
O superintendente do Iphan na Paraíba sublinhou que o investimento realizado pela gestão municipal vai além da recuperação física do imóvel: trata-se da “preservação da história e memória de um povo”. A frase sintetiza o que o Iphan compreende como o verdadeiro alcance da preservação do patrimônio — não a manutenção estática de uma edificação, mas a garantia de que uma comunidade possa continuar a se reconhecer, a se expressar e a se reinventar nos espaços que ela própria construiu.
Ascom Iphan
FALA PARAÍBA-BORGES NETO
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