Principais legendas da centro-direita chegam às convenções em clima de impasse

 

Elas podem ficar neutras no primeiro turno da disputa à Presidência

Em poucos dias começa uma das etapas mais importantes do calendário eleitoral para os partidos: entre 20 de julho e 5 de agosto, as convenções definirão os candidatos de cada legenda e, tão importante quanto, a quais siglas estarão aliadas. Embora a movimentação nos bastidores tenha se intensificado nas últimas semanas, há mais indefinições do que definições até o momento, principalmente quanto à posição na disputa à Presidência. Na centro-direita, apenas os partidos com candidatura própria ao Planalto têm uma posição clara. Para as demais agremiações, muitas delas entre as maiores bancadas do Congresso, ainda não há decisão, em meio a dúvidas sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e ao cálculo de se vale a pena assumir um compromisso nacional já nessa etapa da disputa.

EM ABERTO - Rueda e Ciro: definição deve ficar para os últimos dias
EM ABERTO - Rueda e Ciro: definição deve ficar para os últimos dias (Pedro Ladeira/Folhapress/.)

O maior exemplo dessa cautela é a federação União Brasil-PP, que tem a maior bancada da Câmara. Os partidos ainda não decidiram a data da convenção nacional, durante a qual vão definir se apoiarão Flávio ou ficarão neutros — posição que, por ora, prevalece. Internamente, já está definido que a prioridade serão os palanques nos estados e a formação de uma grande bancada legislativa. O PP, que esteve ao lado de Jair Bolsonaro em 2022 desde o primeiro turno, tem reservas quanto a um apoio ao filho dele. O presidente da sigla, senador Ciro Nogueira, chegou a ser especulado como vice, mas hoje resiste a uma aliança diante do que viu como falta de apoio de Flávio depois de operação da PF contra ele, em maio, relacionada ao escândalo do banco Master. Uma aliança ainda teria de passar pelo crivo do União Brasil. Também há entraves nos estados: na Paraíba, o governador Lucas Ribeiro (PP) caminhará com Lula, assim como Clécio Luís (União Brasil), no Amapá.

DIVISÃO - Costa Filho: Lula terá apoio do Republicanos em Pernambuco
DIVISÃO - Costa Filho: Lula terá apoio do Republicanos em Pernambuco (Júlio Dutra/.)

Diante desses obstáculos, o Republicanos tornou-se o principal foco das articulações do PL. A legenda, que apoiou Jair Bolsonaro no primeiro turno em 2022, demonstra menos disposição para repetir esse alinhamento desta vez. Há, porém, uma voz de peso em sentido contrário: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, defende que o partido formalize o apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, o que, na avaliação de aliados, transformaria um compromisso hoje essencialmente pessoal de Tarcísio em uma posição institucional da legenda. A convenção nacional do partido está prevista para os dias 3 ou 4 de agosto, praticamente no fim do prazo legal, e dirigentes admitem que as conversas devem seguir até a última hora.

O principal entrave está nos estados: o presidente da sigla, o deputado Marcos Pereira, condicionou um apoio à construção de acordos regionais estratégicos. Enquanto no Espírito Santo o PL caminha para apoiar a candidatura de Lorenzo Pazolini (Republicanos) ao governo, em Mato Grosso o entendimento esbarrou na decisão dos liberais de lançar o senador Wellington Fagundes contra o governador Otaviano Pivetta (Republicanos). Já em Pernambuco, o candidato a vice de João Campos (PSB), que terá apoio de Lula, é do Republicanos, e o presidente do diretório estadual do partido, o ex-ministro do governo Lula Silvio Costa Filho, já disse que garantirá o total apoio da sigla no estado ao projeto de reeleição do presidente.

PURO-SANGUE - Caiado e Kassab: com candidatura própria, PSD evita alinhar legenda a Lula ou a Flávio
PURO-SANGUE – Caiado e Kassab: com candidatura própria, PSD evita alinhar legenda a Lula ou a Flávio (Aloisio Mauricio/Fotoarena/.)

Outro ponto em grande discussão no momento envolve a escolha do candidato a vice de Flávio. A ex-presidente da Caixa Daniella Marques, filiada discretamente ao Republicanos no início do ano, figura entre as opções cogitadas. Apesar de ser o nome preferido pelo Zero Um, ela ainda enfrenta resistências: no Republicanos, prevalece a avaliação de que o posto deveria ser ocupado por alguém com trajetória mais consolidada no partido; no PL, o entendimento é de que o companheiro de chapa precisa agregar votos e ampliar o alcance eleitoral da candidatura. Nos últimos dias, um novo ruído elevou a temperatura das negociações. A divulgação de que o apoio do Republicanos estaria condicionado a uma futura indicação de Marcos Pereira ao Supremo Tribunal Federal levou o deputado a reagir publicamente. Além de negar qualquer acordo, ele afirmou que levantamentos internos mostram um “sentimento de frustração” com a candidatura de Flávio Bolsonaro, o que indicaria preferência pela neutralidade na eleição. A definição, porém, deve ficar para os últimos dias antes da convenção.

A hesitação não se restringe às maiores legendas da centro-direita. O Podemos, que no início do ano ensaiou uma aproximação com o PL, também reduziu o ritmo das conversas, e a provável neutralidade do partido deve ser anunciada na convenção marcada para acontecer também mais perto do fim do prazo, em 2 de agosto. O PSDB deve seguir caminho semelhante: depois de desistir de lançar a candidatura de Aécio Neves ao Planalto, a prioridade da sigla passou a ser a reorganização interna e o fortalecimento de suas bancadas, reduzindo o interesse em assumir um lado na disputa nacional. “Nós achamos que é mais prudente focar nas nossas bancadas, nos governos de estados que temos condições de ganhar e, a partir disso, construir um projeto presidencial próprio do PSDB em 2030”, diz Aécio, que não deve concorrer à reeleição à Câmara, mas pode ser candidato ao Senado por Minas Gerais. No MDB, a estratégia já está praticamente consolidada, e a convenção nacional acontecerá logo no início do calendário, em 27 de julho. A direção nacional trabalha com a perspectiva de neutralidade na disputa presidencial e concentra esforços na construção de alianças estaduais, repetindo uma lógica que vem adotando nas últimas eleições. Se em São Paulo o partido se aproxima da centro-direita, em estados como Minas Gerais, Pará e Alagoas mantém acordos com o PT.

VOO SOLO - Romeu Zema: candidatura não atraiu apoios fora do Novo até o momento
VOO SOLO – Romeu Zema: candidatura não atraiu apoios fora do Novo até o momento (Gabriela Biló/Folhapress/.)

Para cientistas políticos, a demora na definição dos apoios é resultado da combinação de dois fatores. De um lado, esses partidos de centro-direita tradicionalmente evitam assumir compromissos antes de enxergar com mais clareza quem reúne melhores condições de vitória — e ainda há muita incerteza sobre a candidatura de Flávio. De outro, o cenário de forte polarização reduziu o espaço para alternativas competitivas. “Os partidos ficam em uma espécie de camisa de força: não veem uma terceira via viável, mas também hesitam em assumir desde já o custo de embarcar em uma candidatura que enfrenta incertezas”, analisa o cientista político e professor da FGV Carlos Pereira. “Além disso, o sistema partidário brasileiro, tão fragmentado e diverso, tem características regionais. Às vezes, impor um apoio nacional é pior do que construir apoios informais nos estados”, avalia.

A indefinição, porém, não significa que apenas Flávio Bolsonaro enfrente dificuldades para ampliar sua coalizão. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega às convenções em situação relativamente mais confortável por já ter consolidado o apoio dos principais partidos de esquerda, mas também não conseguiu atrair novas legendas de centro para uma aliança nacional, concentrando suas negociações nos estados. Da mesma forma, Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) tampouco ampliaram seus arcos de alianças e seguem, até o momento, sustentados essencialmente pelos próprios partidos. No caso do PSD, Caiado anunciou neste mês uma chapa puro-sangue com Gilberto Kassab como vice, mas a legenda continuará permitindo que governadores como Raquel Lyra (Pernambuco), Fábio Mitidieri (Sergipe) e Mateus Simões (Minas Gerais) apoiem quem julgarem mais conveniente, repetindo a estratégia adotada na eleição presidencial de 2022.

MISSÃO - Renan Santos: ativista do MBL também chega isolado à convenção
MISSÃO - Renan Santos: ativista do MBL também chega isolado à convenção (@renansantos/Facebook)

Ainda assim, é na centro-direita que a indefinição produz maior expectativa. Se Jair Bolsonaro chegou às convenções de 2022 com uma rede de apoios já consolidada, seu herdeiro político ainda depende de negociações que avançam lentamente e permanecem condicionadas, sobretudo, aos interesses regionais dos partidos. Os próximos dias dirão se esse compasso de espera dará lugar a uma definição ou se as convenções serão usadas apenas para oficializar uma tendência que já se desenha nos bastidores: a de que, nesta eleição, os partidos preferiram preservar sua margem de negociação até o último instante.

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