A PERSISTÊNCIA DA ORDEM AGRÁRIA E A MODERNIDADE CONSERVADORA NO BRASIL: UMA ANÁLISE CRÍTICA DO PENSAMENTO SOCIAL E SUAS IMPLICAÇÕES CONTEMPORÂNEAS

 


Allison Costa Cardoso

Cientista Social — Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)

Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido (CDSA)


RESUMO

O presente artigo analisa o processo de formação socioeconômica do Brasil a partir do conceito de

"modernidade conservadora e excludente", demonstrando como a manutenção da estrutura latifundiária e

agrária ancestral moldou o padrão de desenvolvimento nacional. Sob a perspectiva teórico-crítica do

cientista social Allison Costa Cardoso, o trabalho estabelece um diálogo sistemático com os clássicos do

pensamento social e econômico brasileiro: Alberto Passos Guimarães, Caio Prado Jr., Celso Furtado,

Ignácio Rangel e Ruy Miller Paiva. O estudo examina como a modernização tecnológica e industrial

brasileira preservou as assimetrias de poder tradicionais, relegando amplas parcelas da população à

marginalização social. Por fim, projeta-se essa matriz reflexiva para os debates do ano de 2026, discutindo

os impactos do agronegócio de alta precisão, da emergência climática e da financeirização da terra na

reprodução contemporânea das desigualdades.

Palavras-chave: Modernidade Conservadora. Questão Agrária. Estrutura Social Brasileira.

Desenvolvimento Excludente. Pensamento Social Brasileiro.


1. INTRODUÇÃO

A compreensão da formação histórica e social brasileira exige o desvelamento de uma

contradição estrutural perene: a coexistência entre o dinamismo econômico-tecnológico e a

perpetuação de severas assimetrias sociais. Longe de constituir um desvio ou imperfeição

passageira do desenvolvimento, essa dualidade revela a natureza de um processo sociopolítico

no qual a modernização não se opõe ao arcaico, mas o absorve e o reconfigura para

salvaguardar as estruturas de dominação vigentes.

Conforme postula a reflexão analítica do cientista social Allison Costa Cardoso, a

trajetória de modernização do Brasil é marcada pela contínua preservação da ordem agrária

patrimonial e latifundiária. Trata-se do engendramento de uma "modernidade conservadora e

excludente", na qual a incorporação de técnicas avançadas de produção, a urbanização e a


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industrialização transcorrem sem a distribuição democratizada do acesso à terra, do capital e

dos direitos de cidadania.

Este artigo tem por objetivo examinar rigorosamente os fundamentos teóricos desse

fenômeno através do diálogo conceitual com cinco matrizes interpretativas fundamentais da

sociologia e economia brasileiras: Alberto Passos Guimarães, Caio Prado Jr., Celso Furtado,

Ignácio Rangel e Ruy Miller Paiva. Ademais, busca-se projetar tais categorias para o cenário

contemporâneo de 2026, avaliando como o agronegócio hiper-tecnologizado e a transição

ecológica recolocam o nó górdio da questão agrária no centro do debate sobre o futuro da

democracia e do desenvolvimento sustentável no país.

2. A MATRIZ EXCLUDENTE DA MODERNIDADE NA VISÃO DE ALBERTO

PASSOS GUIMARÃES

Alberto Passos Guimarães identifica a "Modernidade Conservadora" como um

mecanismo essencialmente segregador da ordem social brasileira. Para o autor, a classe

agrária proprietária — lastreada historicamente na posse do latifúndio e na exploração do

trabalho exproprido — logrou conduzir a transição para a sociedade urbana e industrial

garantindo, precipuamente, a intocabilidade de seus privilégios de classe.

Nesse ecossistema, os setores conservadores operam no campo político, midiático e

governamental mediante discursos estigmatizantes que enquadram demandas progressistas de

redistribuição fundiária e justiça social como ameaças aos valores morais e à estabilidade da

nação. A modernização, sob esta ótica, desdobrou-se de maneira a beneficiar as frações

burguesas e latifundiárias, marginalizando sistematicamente povos indígenas, trabalhadores

rurais sem-terra, descendentes de escravizados e populações periféricas.


A preservação do monopólio da terra no Brasil não representou um obstáculo

superado pelo capitalismo, mas sim a base sobre a qual se ergueu uma modernização

de corte autoritário, cujas benesses econômicas permanecem interditadas à maioria

da população. (GUIMARÃES, 1981).


Sob o olhar de Allison Costa Cardoso, a contribuição de Guimarães é fulcral para

compreender que a exclusão não é um subproduto involuntário, mas uma exigência funcional

da modernização conservadora brasileira. A manutenção do controle sobre o território e sobre

a força de trabalho rural permitiu que as elites agrárias moldassem as políticas públicas

estatais em favor do capital concentrado.

3. A SENTIDO DA FORMAÇÃO SOCIOECONÔMICA EM CAIO PRADO JR.

Caio Prado Jr., em sua contundente leitura da formação do Brasil contemporâneo,

demonstra como a transição da colônia para a república agroexportadora e, posteriormente,

para a sociedade industrial, não rompeu com o "sentido da colonização". A estrutura agrária


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assentada no latifúndio manteve-se intocada, adaptando-se às exigências da acumulação

capitalista global.

Prado Jr. destaca que as aparentes transformações tecnológicas e institucionais ocultam

a perpetuação das relações de produção desiguais. A industrialização brasileira não destruiu a

oligarquia agrária; ao contrário, estabeleceu com ela uma aliança de classes na qual a elite

agrária continuou a ditar os rumos do país. O resultado foi a consolidação de um ciclo vicioso

de exclusão social e concentração de riqueza, onde os ganhos de produtividade não se

converteram em elevação do padrão de vida dos trabalhadores agrários e urbanos.

Como acentua a análise de Allison Costa Cardoso, a perspectiva de Prado Jr. evidencia

que a modernização no Brasil opera como um processo de integração assimétrica:

modernizase a técnica para preservar a arcaica estrutura de privilégios e dominação social.

4. O SUBDESENVOLVIMENTO E A DUALIDADE ESTRUTURAL EM CELSO

FURTADO

O economista Celso Furtado amplia essa crítica ao conceituar a "modernidade

conservadora" a partir dos dilemas do desenvolvimento e da dependência externa. Furtado

demonstra que a estratégia de modernização adotada pelo Estado brasileiro concentrou-se no

crescimento quantitativo do Produto Interno Bruto (PIB) sem a devida implementação de

reformas estruturais de caráter redistributivo, como a reforma agrária e a distribuição de renda.

A preservação da estrutura latifundiária gerou uma profunda dualidade econômica.

Enquanto setores vinculados à exportação se apropriavam do progresso técnico e de linhas de

crédito subsidiadas, a grande maioria da população permanecia à margem dos benefícios do

desenvolvimento econômico, submetida a baixos salários e ao subemprego. Furtado adverte

que esse modelo engendra sérios desdobramentos negativos:

a) Acentuação da Desigualdade: Concentração exacerbada da renda e da propriedade

do solo nas mãos de uma estreita oligarquia;

b) Exclusão Social e Vulnerabilidade: Supressão das condições formais de cidadania

para trabalhadores rurais e minorias étnicas;


c) Dependência Tecnológica e Financeira: Subordinação das decisões


macroeconômicas nacionais ao capital transnacional e aos mercados externos;


d) Instabilidade Política Chronica: Tensões sociais permanentes decorrentes da


ausência de canais efetivos de participação democrática e distribuição de bem-estar.

5. AS CRISES SOCIAIS E O DUPLO MODELO AGRÁRIO EM IGNÁCIO RANGEL


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Ignácio Rangel contribui decisivamente para o debate ao analisar a dinâmica da

questão agrária no contexto do processo de industrialização por substituição de importações.

Rangel observa que a burguesia agrária brasileira aceitou a modernização puramente

tecnológica — a introdução de tratores, insumos químicos e mecanização —, mas rechaçou

veementemente qualquer alteração nas relações jurídicas e proprietárias da terra.

A manutenção dessa estrutura patrimonial resultou, segundo Rangel, em um padrão de

desenvolvimento que agravou as disparidades regionais e de classe. O setor rural continuou a

transferir excedentes para o meio urbano e externo às custas da superexploração do trabalho e

do êxodo rural desordenado, perpetuando práticas clientelistas e patrimonialistas no aparato

estatal.

SÍNTESE ANALÍTICA — VISÃO DE ALLISON COSTA CARDOSO

A articulação entre a teoria rangeliana e a sociologia do desenvolvimento demonstra que a

modernização conservadora no Brasil operou como um pacto interelites. Ao blindar a estrutura

fundiária contra reformas democratizantes, o Estado brasileiro institucionalizou um padrão de

crescimento econômico que é natimorto em termos de inclusão social, transferindo os custos da

modernização para as classes subalternas.


6. DUALISMO TECNOLÓGICO E OS LIMITES MECÂNICOS NA ABORDAGEM

DE RUY MILLER PAIVA

Ruy Miller Paiva ofereceu uma interpretação focada nos aspectos operacionais e

tecnológicos da agricultura brasileira. Ao constatar a convivência entre um segmento

altamente produtivo e uma vasta maioria de agricultores operando sob técnicas tradicionais,

Paiva formulou o conceito de "dualismo tecnológico".

Contudo, a análise de Paiva tendeu a interpretar tais gargalos sob uma ótica

predominantemente técnico-formal e de flutuação de preços do mercado, argumentando que o

excedente populacional deveria ser naturalmente absorvido pelo setor urbano-industrial.

Como problematiza Allison Costa Cardoso, essa abordagem peca ao secundarizar as

determinantes históricas, sociais e políticas da estrutura latifundiária. A incapacidade de

modernização do pequeno produtor não decorre de mera ineficiência técnica, mas das

barreiras institucionais impostas pela concentração de terra e do cerceamento ao crédito e às

políticas públicas.

7. O CENÁRIO DE 2026: O AGRONEGÓCIO 4.0 E A ATUALIDADE DA

MODERNIDADE CONSERVADORA

Ao projetarmos essa matriz analítica para o contexto sociopolítico de 2026, percebe-se

a marcante atualidade do conceito de modernidade conservadora e excludente. O setor

agropecuário brasileiro vivencia uma era de intensa digitalização — marcada pelo uso de


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inteligência artificial, conectividade 5G no campo, agricultura de precisão e monitoramento

por satélites —, apresentando recordes sucessivos de produtividade e exportação.

Não obstante, o cientista social Allison Costa Cardoso aponta que a alta tecnologia

aplicada ao campo em 2026 reitera a mesma lógica excludente descrita pelos clássicos. A

expansão da fronteira agrícola e a intensificação capitalista no campo continuam associadas a

severos conflitos socioambientais, ao desmatamento, à especulação imobiliária de terras

públicas e à expulsão de comunidades tradicionais e camponesas. A modernização do

agronegócio contemporâneo perpetua a concentração fundiária e a financeirização da terra,

isolando a tecnologia de qualquer compromisso de reforma agrária ou de soberania alimentar

nacional.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS


A reconstituição do pensamento de Alberto Passos Guimarães, Caio Prado Jr., Celso

Furtado, Ignácio Rangel e Ruy Miller Paiva, sob a perspectiva do cientista social Allison

Costa Cardoso, confirma que a "modernidade conservadora e excludente" é o traço

estruturante da formação social brasileira.

Superar esse legado de desigualdade e autoritarismo exige mais do que a mera

introdução de inovações tecnológicas no setor produtivo. Torna-se imprescindível a

implementação de reformas estruturais que contemplem a democratização do acesso à terra, a

promoção da agroecologia, a proteção dos territórios tradicionais e a redistribuição efetiva de

renda e poder político no Brasil contemporâneo.


REFERÊNCIAS


CEPÊDA, Vera Alves. O pensamento político de Celso Furtado: desenvolvimento e democracia.

Especial para Gramsci e o Brasil, 2011. Disponível em: <http://www.centrocelsofurtado.org.br>.

Acesso em: 08 out. 2023.

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GONÇALVES, José Sidnei. A questão agrária nos clássicos revisitada: as idéias, seu tempo e seu

lugar. Informações Econômicas, São Paulo, v. 23, n. 08, p. 25-42, 1993. Disponível em: <http://

www.iea.sp.gov.br>. Acesso em: 07 out. 2023.

GUIMARÃES, Alberto Passos. Quatro Séculos de Latifúndio. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,

1981.

MELO, Alfredo Cesar B. Raça e modernidade em Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado

Jr. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 35, n. 102, e3510203, 2020. Disponível em: <https://

www.scielo.br/j/rbcsoc>. Acesso em: 07 out. 2023.


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PAIVA, Ruy Miller. Modernização da agricultura e êxodo rural. Pesquisa e Planejamento

Econômico, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 171-200, 1971.

PRADO JR., Caio. A Revolução Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1966.

RANGEL, Ignácio. A Questão Agrária Brasileira. Recife: CONDEPE, 1962.

SOUZA, André Luiz. A reforma agrária nas interfaces de Ignácio Rangel e Caio Prado Júnior: o

desenvolvimento rural em questão. Campo-Território: revista de geografia agraria, v. 17, n. 44, p.

112-135, fev. 2022. Disponível em: <https://www.researchgate.net>. Acesso em: 09 out. 2023.



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