Da Paraíba ao Chile, a trajetória de Vinicius Maracajá-Coutinho mostra como a construção de uma carreira científica internacional pode começar muito antes da primeira viagem ao exterior.
Biólogo formado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e doutor em bioinformática pela Universidade de São Paulo (USP), Maracajá-Coutinho construiu uma carreira marcada pela colaboração entre instituições, países e áreas do conhecimento.
Hoje é professor associado da Universidade do Chile, onde lidera o Laboratório de Bioinformática Integrativa, e atua também como pesquisador em saúde pública na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da Bahia. Maracajá-Coutinho é fundador da Beagle Bioinformatics, empresa chileno-brasileira voltada à inovação, e integra programas de pós-graduação no Brasil.
Ao longo do percurso, participou de atividades de formação em diferentes instituições, realizou estágios e colaborações internacionais e atuou como pesquisador visitante e consultor de organismos internacionais.
Para ele, congressos, cursos, workshops e redes colaborativas desempenham papel central na formação de cientistas e na criação de oportunidades acadêmicas.Em entrevista ao Science Arena, Maracajá-Coutinho fala sobre os caminhos para a internacionalização da carreira científica, o fortalecimento das redes latino-americanas de pesquisa e os desafios de conciliar excelência acadêmica, colaboração global e inovação.
Science Arena – Quando você decidiu que queria construir uma carreira internacional na ciência? Houve algum momento que mudou sua forma de enxergar esse caminho?
Vinicius Maracajá-Coutinho – Sempre tive curiosidade em conhecer outros países, culturas e formas de pensar. Quando me aproximei da pesquisa na universidade, percebi que a ciência era uma forma poderosa de conectar pessoas em torno de objetivos comuns.
A mudança de perspectiva ocorreu quando comecei a participar de eventos científicos e a interagir com pesquisadores do Brasil e do exterior.
Percebi que os desafios científicos mais relevantes exigem colaboração, troca de conhecimento e construção de redes.
A internacionalização deixou de ser apenas um desejo pessoal e passou a ser uma estratégia científica para ampliar o impacto do meu trabalho.
Antes da experiência internacional, você já vinha construindo uma trajetória de mobilidade acadêmica dentro do próprio Nordeste. Como essas experiências ajudaram a abrir caminhos para oportunidades posteriores?
Graduei-me na Universidade Federal da Paraíba e, desde cedo, participei de cursos e programas de formação em diferentes instituições. Além do aprendizado, essas experiências permitiram construir uma rede de relacionamentos científicos.
Foi nesses espaços que conheci pessoas que mais tarde se tornariam colaboradores, colegas de pesquisa e orientadores. Muitos deles continuam sendo parceiros científicos até hoje.
Nos últimos anos, você percebe um fortalecimento da pesquisa produzida no Nordeste brasileiro? Quais avanços mais chamam sua atenção?
Sim. Tenho acompanhado o fortalecimento da bioinformática e das ciências ômicas no Nordeste. Hoje existe uma massa crítica muito mais consolidada do que havia há duas décadas.
Centros de pesquisa, programas de pós-graduação e iniciativas como o Simpósio Norte-Nordeste de Bioinformática vêm formando recursos humanos qualificados e fortalecendo a integração regional.
Também me chama a atenção o crescimento de pesquisas voltadas a desafios locais. A Caatinga, por exemplo, tem grande potencial para descobertas relacionadas à biodiversidade, adaptação climática, biotecnologia e conservação.
Ainda existem desafios relacionados ao financiamento, à infraestrutura e à retenção de talentos.
O Nordeste deixou de ser apenas consumidor de conhecimento para se tornar um produtor relevante de ciência e inovação.
O que você considera essencial para quem deseja construir uma trajetória científica global?
É importante entender que a internacionalização não começa quando se embarca em um avião. Participar de congressos, cursos, workshops e redes colaborativas foi fundamental em todas as etapas da minha carreira.
A ciência funciona cada vez mais em equipes multidisciplinares e internacionais e saber dialogar com pessoas de diferentes áreas e culturas é tão importante quanto dominar uma técnica específica.
Outro aspecto importante é manter uma postura ativa. As oportunidades costumam surgir para quem busca colaboração, apresenta seu trabalho e se torna visível na comunidade científica
Existe uma tendência de olhar para Europa e Estados Unidos quando se fala em internacionalização. Qual é a importância de fortalecer também as redes latino-americanas?
A colaboração com Europa e Estados Unidos continua sendo importante. No entanto, fortalecer as redes latino-americanas será estratégico para o futuro da ciência na região.
Os países da América Latina compartilham desafios comuns, como desigualdades sociais, doenças negligenciadas, conservação da biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas.
Fortalecer a colaboração regional também amplia nossa soberania científica e permite definir agendas de pesquisa alinhadas às necessidades da população latino-americana.
Além da carreira acadêmica, você fundou uma empresa de bioinformática. Como foi esse movimento?
Foi uma experiência desafiadora. Ao fundar uma empresa de bioinformática, precisei aprender sobre modelos de negócio, propriedade intelectual, gestão e sustentabilidade financeira.
Essa experiência mudou minha visão sobre inovação. Hoje entendo que gerar conhecimento científico é apenas parte do processo.
Também precisamos transformar descobertas em impacto social, econômico e tecnológico.
Quais conselhos você daria a estudantes e jovens pesquisadores que desejam combinar excelência acadêmica, experiência internacional e inovação?
Cultivar a curiosidade e não limitar os próprios sonhos ao contexto imediato. Outro ponto fundamental é investir na construção de redes humanas.
A ciência é feita por pessoas e colaborações e mentorias frequentemente têm grande impacto na carreira.
Acredito que os jovens pesquisadores não precisam escolher entre excelência acadêmica e inovação. As duas dimensões podem se fortalecer mutuamente, desde que o rigor científico seja preservado.
Fonte:Science Arena
FALA PARAÍBA BORGES NETO

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