Kubitschek Pinheiro
Fotos – Marcos Hermes
´Sou´ – o primeiro álbum de estúdio da banda carioca Soul de Brasileiro chega disparado as plataformas digitais, pelo selo Toca Discos, com distribuição da Universal Music. O álbum reúne 10 anos de trajetória do trio formado por Negra Silva, José Junior e Ge Vieira. O trabalho ainda traz participações de Paula Lima, Josiel Konrad e do rapper Hiran, além do lançamento do videoclipe de “Oxum Rabane”.
Originário da Vila Kennedy, na zona oeste do Rio de Janeiro, o grupo construiu sua identidade musical a partir da combinação entre soul music, samba, MPB, jazz, funk e matrizes afro-brasileiras.
As canções do álbum abordam temas como pertencimento, ancestralidade, espiritualidade, afeto e resistência, refletindo as experiências dos três integrantes ao longo da última década.
Com direção artística de Constança Scofield e produção musical de Felipe Rodarte, “Sou” foi gravado no estúdio Toca do Bandido e reúne composições autorais que dialogam com referências da música brasileira e internacional, como Cassiano, Tim Maia, Sandra Sá, Jorge Ben, Marvin Gaye, Lauryn Hill, Jill Scott, Fela Kuti e Erykah Badu.

O MaisPB conversou com o trio José Junior, Negra Silva e Ge Vieira que acrescentou muito mais da trajetória e desse trabalho inicial
MaisPB – – O disco SOU é, de cara, algo novo, com o jogo das palavras que mexem com o público. Vamos começar por aqui?
José Junior – Esse nome surgiu justamente da vontade de afirmar quem nós somos. É uma palavra pequena, mas cheia de significados. Quando você diz “Eu sou”, você está se colocando no mundo. E pra gente tem muito a ver com identidade, ancestralidade, memória e também liberdade. Então “SOU” acabou sendo uma declaração: nós somos tudo isso que está aqui. Somos nossas histórias, nossas referências, nossas raízes, nossas experiências e aquilo que ainda estamos nos tornando.
MaisPB – Abrem com De Onde Eu Vim (de Ge Vieira e José Junior), que traz uma esperança, mostrando de onde viemos e nem sabemos, mas estamos aí para lutar e sobreviver – além das porradas – vamos falar dessa canção que nos ensina perder o medo e o melhor, nossa raiz é de um baobá…
Negra Silva – A música De Onde Eu Vim fala da nossa história de vida, de onde tudo começou, de onde nascemos e crescemos. Fala da Vila Kennedy, comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro, que é parte fundamental da nossa história e das nossas raízes. Quando falamos que nossa raiz é de um baobá, estamos falando dessa força, dessa resistência, desse amor pelo lugar de onde viemos. A Vila Kennedy nos ensinou muito sobre coragem, fé e esperança, mesmo em meio a todos os desafios e aos momentos de caos que tantas vezes atravessamos. Essa canção nasceu também para trazer uma mensagem de força e coragem e mostrar que dentro de uma comunidade existem pessoas que sonham, que acreditam e que são capazes de conquistar tudo aquilo que desejarem.
MaisPB – Oxum Rabanne não deixa ninguém sentado – que sacada! – A sensação é que a proposta do disco é isso, a vida, né?
Ge Vieira – Esses metais em Oxum Rabanne são a “vibe”! Nessa música a autoestima é a parada! Você está de bem com tudo que te representa, escolher você em primeiro lugar e ser feliz com essa escolha. A proposta do disco é que você se sinta finalmente bem com que você é. Com o todo que faz você ser você. E sim, isso é vida!
MaisPB – Me diz aí que o trio Soul de Brasileiro está nas paradas há dez anos – porque só agora sai essa discão?
José Junior – Porque talvez ele precisasse desses dez anos para existir. Foi uma construção muito importante pra nós, durante todos esses anos de muito trabalho. Foram encontros, estudos, experiências, shows, música e muita vida acontecendo. Um álbum como “SOU” precisava de maturidade. Não só musical, mas enquanto indivíduos. Acho que cada uma dessas experiências foi colocando uma camada nesse disco. Então, quando ele finalmente chegou, chegou no momento em que a gente estava pronto para dizer exatamente o que queria dizer.
MaisPB – A faixa Ai Tem Coisa – é jazz puro e há um silêncio na canção, as vozes se unem ao trombone de Josiel Konrad – vamos pensar em sambar é demais – falai pra gente se realmente ai tem coisa?
Ge Vieira –Tem, tem muita coisa! Tem samba, flerte e sensualidade, tem a junção do nosso trio com esse feat incrível, artista da baixada do Rio, que assim como nós difunde seu território com um trabalho de resgate de ancestralidade com modernidade popular. “Aí Tem Coisa” pra nós é uma música de celebrar esse espírito brasileiro, de misturar ritmos e sempre encontrar nessas misturas um algo novo que nos represente.
MaisPB – A quinta faixa Eu Sou, a letra que somos tudo e vamos em frente – linda essa canção… sou a mulher e a goiabeira…eu também sou, viu?
Ge Vieira – Você é, nós somos, inclusive, nós somos, porque você é… rs essa é uma das muitas mensagens e metáforas de nossa quinta faixa “Eu Sou”. Ela traz nosso conceito para o disco, e usa de metáforas e sensações que a gente sente e vive. No caso de “a mulher e a goiabeira”, se trata do relato dessa mulher já quase centenária, nos contando do sentimento de plenitude que ela adquiriu, e de como ele está presente hoje, até quando ela para pra observar os movimentos que o vento faz em uma árvore de goiabas. Ela sentiu, nos fez sentir, virou essa música que fala do todo que somos, e do que por ser sagrado, nos faz ser quem somos.
MaisPB – Vão sair por aí cantando esse disco, vão chegar até o Nordeste?
José Junior – A gente quer muito! O plano é levar “SOU” para todos os lugares do Brasil e encontrar o público cara a cara. A nossa música não respeita fronteira regional. Ela nasceu no Rio, carrega muitas referências brasileiras e tem essa vontade de circular, de encontrar outros sotaques, outros públicos e outras histórias. E João Pessoa, claro, seria um encontro muito especial, ainda mais porque estamos falando de uma terra que também faz parte da história da música brasileira e que nos deu uma das nossas grandes referências, o Cassiano.
MaisPB – A faixa Eu segui, mostra mais uma vez que esse disco tem uma sequência de signos, sentimentos, vamos falar dessa canção?
Negra Silva – Eu Segui é um R&B que fala de amor, mas não de um amor romântico e sim de amor-próprio, sobre aprender a se olhar com mais carinho, reconhecer a própria força e seguir em frente. É uma música sobre superação e esperança, sobre entender que, mesmo depois de tudo que a vida coloca no nosso caminho, a gente pode escolher continuar. E tivemos a honra e o grande prazer de contar com um feat da diva da soul music Paula Lima, que sempre foi uma grande inspiração para nós como artistas. A presença dela trouxe ainda mais potência, verdade e emoção para essa canção.
MaisPB – Puxa vida! Descombinar é demais, parece uma resposta e é. Falaí?
Negra Silva – Descombinar também é um R&B e nasceu muito inspirada pelas nossas referências musicais, como Cassiano, Tim Maia, Sandra Sá, entre tantos outros. A música fala daquele momento em que você combina consigo mesmo que vai entrar em uma relação sem envolvimento, sem querer se apaixonar, sem criar expectativas… até que, quando percebe, está completamente descombinado tudo aquilo que tinha planejado. (Risos) É aquela velha história: a gente acha que consegue controlar o coração, mas ele vai lá e faz o contrário. Então, fica o convite: descombinar pra vocês também! (Risos)
MaisPB – A direção de Constança Scofield e a produção musical de Felipe Rodarte, além dos músicos, está tudo aí né?
José Junior – Com certeza. Poder ter a experiência e o olhar de Constança Scofield e Felipe Rodarte nesse trabalho foi importantíssimo para chegarmos nesse resultado tão lindo como “SOU”.
E tem todo um time de músicos, técnicos, artistas e profissionais que colocou seus talentos e sua alma nesse trabalho. É muita gente fazendo esse disco acontecer junto com a gente. No fim, o “SOU” tem três vozes que aparecem na frente, mas carrega muitas outras pessoas por trás. E com esse time todo, o resultado não podia ser outro: um discão!
MaisPB – As referências ao paraibano Cassiano, Tim Maia, Sandra Sá, Jorge Ben, Marvin Gaye, Lauryn Hill, Jill Scott, Fela Kuti e Erykah Badu, e toda a luminosidade brasileira deixa o disco SOU nas alturas, né?
José Junior – Sim, e isso são só algumas das várias fontes que formaram nossa musicalidade. Esses nomes junto a tantos outros, nos inspiram, e é com gratidão e reverência que transformamos essas inspirações em algo muito nosso, no sentido de ser nosso o disco, mas também de ser muito brasileiro o som. É uma homenagem a essa complexidade fantástica que é o ser humano e suas vivências, a nossa trajetória até esse momento e a soul music brasileira. Se as pessoas quiserem colocá-lo assim, no alto, tudo bem pra nós rs! Mas esperamos que elas ouçam bem alto também, pra gente celebrar juntos!
MaisPB – O que dizer das participações de Paula Lima, do músico Josiel Konrad e do rapper baiano Hiran…
José Junior –Foi uma alegria imensa! Poder reunir no nosso álbum artistas que a gente admira tanto é um presente. Nós temos a Paula Lima cantando com a gente uma canção nossa, que se chama Eu Segui. Para nós, é muito especial. Paula é uma das grandes vozes da nossa música brasileira e uma referência desde sempre. Foi um encontro muito bonito. Também tivemos a felicidade de ter Josiel Konrad, que é um artista e músico extraordinário, participando de Aí Tem Coisa e levando toda a potência do seu trombone para a música. E em Glória a gente teve a honra de contar com Hiran, um rapper baiano de poesia afiada, que chegou trazendo uma outra camada para a canção e deixando tudo ainda mais potente. Estamos muito felizes com nossos feats. Mais do que participações, foram encontros com artistas que admiramos e que ajudaram a ampliar o universo do “SOU”.
MaisPB – Adorei a capa e a canção Minha Vive, tem que tocar muito nas plataformas. Vamos falar dessa canção?
Negra Silva – Minha Vibe nasceu de uma situação que não foi nada legal, mas que a gente decidiu transformar em algo positivo. Nós passamos por uma situação de racismo e aquilo nos atingiu. Mas, em vez de deixar aquela energia ruim quebrar a nossa caminhada, decidimos ressignificar o que aconteceu através da música. Não queríamos deixar nada destruir a nossa vibe. Foi aí que nos juntamos a alguns amigos, como Jon Cristino, Lu Dom e Felipe Rodarte, e transformamos aquela experiência em uma canção de leveza, amor, autoestima e celebração. A música acabou virando exatamente isso: uma escolha de não carregar aquilo que querem colocar sobre nós. É dizer: isso aconteceu, mas não vai definir quem somos nem tirar a nossa alegria. E a capa conversa muito com essa energia. Ela traz esse alto-astral da música, com uma inspiração nos anos 70, nessa estética vibrante, solar e cheia de personalidade.
MaisPB – Vamos falar com o videoclipe onde vocês estão em todo canto, nesse canto mais acertado de levar a voz e as cenas pras ruas – genial e acabam conversando numa mesa….
Ge Vieira – Você quer dizer os videoclipes né? No plural, rs! Temos uma trilogia onde a gente leva nossa música onde ela nasce, como você bem disse “pras ruas”. O primeiro, é também a primeira música do nosso álbum SOU, “De Onde Eu Vim” fala desse lugar de onde viemos, a Vila Kennedy, que não é somente geográfico, é afetivo nostálgico e doou muito pros artistas que somos hoje. O segundo é o de “Minha Vibe”, nona música do nosso álbum, gravado num domingo de Sol na praia, com todo mundo vivendo suas vibes, como a letra mesmo diz, esses dois dirigidos por PH Soares e nós. O terceiro é Oxum Rabanne, segunda música do álbum, direção nossa e de Marcos Hermes, gravado na Feira da Glória no Rio de Janeiro, com toda a espontaneidade da vida que acontece no agora, num soul de auto estima e muita brasilidade da vida real e comum.
Link clipe Oxum Rabanne: https://youtu.be/
FALA PARAÍBA-BORGES NETO
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